quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Olhar fixo no horizonte

Olhar fixo no horizonte

Quando cessa o sonho,
Vem a necessidade de expelir
Toda forma de sentir, de se ter apreço.
Não há o que esperar da inércia.
 Da forma de sentir, de manter o desejo,
De sufocar o momento insuficientemente sem ternura.

Olhar para o lado e notar as formas,
Como são as coisas, profundamente no horizonte:
É ver um ponto de saída,
Voar em direção e prender-se
Devoto a qualquer motivo para sentir alívio

Isso tudo escapa-se no instante
Em que nada parece real
Porque a realidade é mortalmente insuportável
Aos corações sonhadores de vida.


Valdomiro Maria

Transe

Transe

Quando pensou em voltar,
percebeu que para onde quer que fosse
não conseguiria fugir a si próprio.

sua alegria,
e a via se esvair como água
por entre os dedos.

suas emoções confundiam-se,
tudo começou a girar enlouquecidamente
em sua cabeça.

o tempo, a paisagem, o seu redor,
tudo misturava-se
num carrossel de cores translucidas...

sentou-se perplexo,
sem entender o que estava acontecendo...
fechou os olhos...


Valdomiro Maria

Sobre a Luz

Sobre a luz

Falemos da luz:
Dessa mágica inviolável, impenetrável,
Sensual, afável;
Entre o que a conduz
E o que se deduz,
Penetra ela viva
Movimentando objetos mórbidos,
Lugares sórdidos.

Ela inunda qualquer ambiente,
Viaja anos-luz através da escuridão,
Explode no chão
Em nossa visão.
A luz que rasteja dos faróis das estrelas
Dos cascalhos refletores de seu brilho
Dos ladrilhos...
Diamantes brilhantes.
Incandesce por entre as folhas das árvores
Das pedras reluzentes dos mármores
Dá vida a tudo que é treva, sombra, lares...

Essa luz és tu,
Que saboreia o brilho nos meus olhos
Quando vejo luz nos seus lábios seu rosto moldar
E em mim essa loucura de causar.


 Valdomiro Maria

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Papel em branco

Papel em branco

O branco do papel me possibilita pensar
Com os olhos conectados
No meio-fio do azul hipnótico
Deste céu fazedor de poetas, de apaixonados.

A imaginação flutua
Na fonte escura
De onde brilha a exposição do além...

Tudo me é disponível,
Possível, invisível...
Puxo pelas mãos as teias que envolvem:
Lua e estrela
Nuvem e sol,
E vou rabiscando o pedaço de papel,
Mas ainda branco
Como agora o céu.

O desejo de voar, atravessando tudo.
A velocidade estoura minha visão;
E o que vejo esvai, desmancha-se.


Valdomiro Maria

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Em ondas de choque

Em ondas de choque


Em ondas de choque
Perfurantes,
Vêm as lembranças
Causas algumas de sofisticação...
Apenas um sentimento agudo

Vontade de lá estar só mais um pouco,
Reviver, segundos que fosse,
Um detalhe em queda livre,
Na memória

 O passado traz não apenas suspiros demorados;
Traz uma dor infinita -  por um instante,
Capaz de liberar lampejos insuportáveis de saudade.

A volta é inatingível, não há o que se fazer...
Apenas lembrar...
Relembrar...
Saborear um devaneio instantâneo
Que me coloca de frente para uma realidade infinita:
Possibilidade infundada
No entanto, amavelmente palpável.

Valdomiro Maria

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O irreal

Dentro de um quadro melhor
Situa-me um estranhamento:
Veemente totalizado fim
Para compreender um algo:
O irreal.

É estranho pensar
É estranho tatear essa membrana,
Esses esquecimentos suspirosos
De uma alegria finda,
Incrustada na malha perdida
Da noite partida.

Abro os olhos,
O meu redor é negro
Lá, perdida no fundo, um bico de luz...
Semblante fixo, pensamento alado.
Desisto...
Volto à clareza dos olhos cerrados,
Remonto meu horizonte:
Agora tenho um Norte.

O lago reluz um brilho incalculável
Cores e sons invadem o cenário.
Há um pequeno declínio no canto do lábio,
Uma imagem desfigurada
A meio-fio aparece,
Algo acontece:
Uma espécie de torpor instala-se.
Mas sou minúsculo, não me há forças,
Corro e caio
Levanto-me, saio.
A distância é enorme
Sinto, agora, a chuva,
Cada gota penetra-me a pele
Estou no deserto
Procuro aquela imagem, ela é outra.
Sufoco-me sedento, sangro, afogo-me.
E então, estou, novamente,
Preso à realidade de sonhos irreais.

Valdomiro Maria

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A beleza do instante

A beleza do instante (Valdomiro Maria)

Silêncio... tudo estático...
E radiante reaparece o sol
Num alento colorido na forma de ser
Um isso minucioso,
De repente estoura,
É a noite orvalhada que escorre
Por entre o tom do brilho efervescente
Nos olhos divididos
Por ora despidos de sonhos, cravejados das incertezas.

Mas a luz,
A luz que aos poucos se turva,
Exala um perfume: é a pureza,
O timbre indizível,
Algo que só se encontra no coração liberto das mazelas do mundo.

A beleza então se faz mútua,
Cada pedaço de sonho e desejo,
Nesse instante, é palpável, possível, sólido...
A beleza do instante,
A hora mágica,

O momento de toda uma vida: a aurora do noite-dia!