quinta-feira, 1 de junho de 2017

O irreal

Dentro de um quadro melhor
Situa-me um estranhamento:
Veemente totalizado fim
Para compreender um algo:
O irreal.

É estranho pensar
É estranho tatear essa membrana,
Esses esquecimentos suspirosos
De uma alegria finda,
Incrustada na malha perdida
Da noite partida.

Abro os olhos,
O meu redor é negro
Lá, perdida no fundo, um bico de luz...
Semblante fixo, pensamento alado.
Desisto...
Volto à clareza dos olhos cerrados,
Remonto meu horizonte:
Agora tenho um Norte.

O lago reluz um brilho incalculável
Cores e sons invadem o cenário.
Há um pequeno declínio no canto do lábio,
Uma imagem desfigurada
A meio-fio aparece,
Algo acontece:
Uma espécie de torpor instala-se.
Mas sou minúsculo, não me há forças,
Corro e caio
Levanto-me, saio.
A distância é enorme
Sinto, agora, a chuva,
Cada gota penetra-me a pele
Estou no deserto
Procuro aquela imagem, ela é outra.
Sufoco-me sedento, sangro, afogo-me.
E então, estou, novamente,
Preso à realidade de sonhos irreais.

Valdomiro Maria

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A beleza do instante

A beleza do instante (Valdomiro Maria)

Silêncio... tudo estático...
E radiante reaparece o sol
Num alento colorido na forma de ser
Um isso minucioso,
De repente estoura,
É a noite orvalhada que escorre
Por entre o tom do brilho efervescente
Nos olhos divididos
Por ora despidos de sonhos, cravejados das incertezas.

Mas a luz,
A luz que aos poucos se turva,
Exala um perfume: é a pureza,
O timbre indizível,
Algo que só se encontra no coração liberto das mazelas do mundo.

A beleza então se faz mútua,
Cada pedaço de sonho e desejo,
Nesse instante, é palpável, possível, sólido...
A beleza do instante,
A hora mágica,

O momento de toda uma vida: a aurora do noite-dia!

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Imagem no lago



Os caminhos que percorri, todos eles, acabaram.
Chegou a um ponto em que tudo me é situacional.
Esmero-me por veredas intransponíveis,
Rompo limites desestimulantes
E chego a lugar nenhum.

Sonhos são redundantes.
Ilusões, cansativas em suspiros desanimados.
Tudo que me rodeia é nostálgico.
Sentimentos petrificados perduram em lapsos de memórias.

O que é bem-vindo já se foi.
O tempo levou...
O sonho levou...
A vida levou...

A vontade, esta, onde está?

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Quem sabe um dia 
eu volte a sorrir de verdade.
Sorrir soluçante, dançante,
amante da realidade.
Sorrir de saudade, à vontade.

Por entre desilusões
sem as ruins sensações,
por mil corações...
sorrir, não rir, mas sorrir.
Sentir cada pingo de detalhe
em que para sorrir, tudo vale

E entre risos e sorrisos,
moldar meu coração
com alegrias por vir
e disso tudo rir e sorrir.
Estou tentando realizar um poema
Algo fascinante
Emocionante
Que provoque suspiros
Longos suspiros de admiração
Todavia, está se tornando avassalador
Na verdade, um caos!

As palavras parecem me detestar
Relutam em soar
Fogem resolutas e escondem-se
Sabe Deus onde

E eu, mero mortal,
Apenas tenho que sofrer
A falta do que escrever

Este branco do papel
Como o infinito do céu
Estrangula-me os miolos
E continuo sem ter o que dizer

O que me sobra é escrever... 
Vez ou outra há o confronto, mas não aquele tradicional, imoral, físico e epilético. O confronto desajustado de uma falência geral, que resta da sensatez. Monstruosamente o desequilíbrio da mente tenta deduzir-se, e o que resulta não priva-nos da dor profunda e aguda dos reflexos involuntários desse coração inquieto e nocivo.

Neste círculo insano não existe alma que resista o suficiente para devolver-nos a razão ou o que restou dela. É aí que nossa mente esmaga-se frenética nos rochedos das causas. Tamanhas são essas que se intitulam perdidas, assim...

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Entre mundos
Valdomiro Maria
... e as voltas que o mundo dá,
Desorientam a forma de pensar.
As reações intercalam com prazeres infundados
Vindos de imaginações repletas de utopias, pecados.

O mundo não é mais seguro,
Viver já está suposto e instável.
As estações que o coração permeia, no escuro,
Surtam, misturam-se e inexistem entre si.

Todo recanto de tranquilidade
É posto à prova.
Incontestáveis análises sem fundamentos...
Os olhos figuram todo o agudo dos sentimentos.

A convivência com o ego,
Transforma-se numa batalha
Em que o sorriso desnatural, que falha,
Esvai-se sem contestar coisa alguma...
E nesse manto escuro dos dentes,
A mórbida e soturna sombra do desespero que sente,

Parece ainda resistir, mesmo suposto o coração frio.